SV#06: Confraria – Torrontés

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Vinhedo de torrontés da bodega Vistalba, Argentina

O episódio de hoje foi meio que um acidente: a confraria ficou muito longa e eu tive que deixar o torrontés para o programa seguinte. No caso, esse de hoje. Só que a uva torrontés é especial e eu aproveitei pra contar um pouco dessa história. Ficou show! No final ainda dou uma super dica para encontrar e comprar vinhos. Vem comigo!

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Os programas acabaram ficando separados em sauvignon blanc de um lado e torrontés do outro, mas eu espero que vocês tenham provado os vinhos juntos, porque fica mais fácil comparar assim, diretamente. Bem diferente, né? Provou às cegas? Tentou dizer qual era qual sem saber? É… aprender de vinhos dá um trabalhão! Pesado…

Antes de falar das notas de degustação, eu quero falar da uva Torrontés, que é a uva branca emblemática da Argentina, mas é mais que isso, porque é uma uva argentina de verdade! Crioula! Cucaracha! E isso é legal porque é uma raridade! Pensa nos vinhos que você já tomou e quais eram as uvas. O mundo dos vinhos é dominado pelas variedades européias, sobretudo as francesas. Nos anos 80 houve um movimento mundial de reconversão de vinhedos, em que os produtores passaram a plantar uvas francesas que é o que a gente mais vê hoje em dia: cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, syrah, pinot noir e sauvignon blanc. Isso foi muito forte no Novo Mundo mas teve seus reflexos até na Europa mesmo. Não foi à toa não. Há um consenso de que essas uvas tendem a gerar melhores vinhos. Mas isso dizimou as uvas nativas ou indígenas. Eu não achei nenhuma fonte que comprove o que vou dizer agora. É um chute meu, que 98% do vinho do mundo é feito com uvas européias. Eu testei essa idéia com alguns profissionais e nenhumficou chocado. Deve est ar bem próximo. O que sim, eu confirmei, é que cerca de 70% dos vinhos é feito a partir de só 30 uvas. E é por isso que eu acho a Torrontés tão legal. É a legítima representante dos cucarachas tropicais aqui! E, apesar de todas as piadinhas infames sobre os nuestros hermanos argentinos, a gente tem que dar o braco a torcer: os caras com uma população igual à do estado de São Paulo têm 5 prêmios Nobel, 2 copas do mundo de futebol, um papa e uma uva autóctone que dá vinhos comercializados
internacionalmente. É pra respeitar!

Houve e há muita controvérsia sobre a origem do Torrontés. Até não muito tempo creditava-se que era a mesma uva torrontés originária da Galizia na Espanha, mas estudos de DNA tem indicado que não. Ela surgiu do cruzamento – aparentemente espontâneo – da uva pays, que é tinta, com a moscatel de alexandria, que é uma branca super aromática mas não muito legal para vinho. Aliás, da mesma forma que aconteceu com a carmenere no Chile, por muito tempo a torrontés cresceu misturada a outras variedades sem que os especialistas se dessem conta. Quando perceberam que era uma variedade diferente, não tinham nem como classificar isso. O primeiro registro encontrado é de 1860.

Mas olha, esse nicho e esse crecente prestígio não caíram do céu não! São fruto do trabalho duro de alguns poucos, que acreditaram no potencial e aprenderam a domar essa uva, que dizem que é bem complicada de trabalhar. A pioneira a investir no Torrontés como varietal foi a Susana Balbo, trabalhando no norte da Argentina, na região de Salta, ela se concentrou em técnicas de manejo e redução do tempo de contato com as cascas das uvas. Eu nunca provei o Torrontés dela, aqui não chega, mas aí no Brasil tem! O Crios. O Território, da nossa Confraria, também é dessa região de Salta, que dizem ser a que produz os melhores vinhos! De fato, na nossa confraria, o Território foi o melhor! Os vinhedos de Salta, especificamente na região do Valle Calchaquíes, são os mais altos do mundo, a 3mil metros acima do nível do mar. A altitude faz com que a temperatura média seja mais baixa, o que é bom para a acidez, que é uma característica desejável nos brancos jovens. Mas pode nao ser só isso. Há vários tipos de torrontés: o Riojano, o Sanjuanino e o Mendocino, sendo o primeiro, o Riojano, o que é considerado melhor, dando vinhos mais aromáticos e ricos. E é justo esse o tipo plantado em Salta. Mas você nunca sabe qual tipo de torrontés está tomando. Ninguém diz o tipo. Dizem só  “torrontés” e pronto.

Os especialistas dizem que ainda não se solidificou uma identidade para o torrontés argentino. Por identidade eu quero dizer um estilo de vinho que você pode confiar que vai ser sempre assim. Não. Tem muita gente experimentando ainda, brincando com barricas, com tempo de maceração e outras mágicas dos enólogos. Eu acredito que, como em tudo mais, é o mercado quem vai dizer. Por agora, a aposta pelo menos para a exportação tem sido em vinhos bem frescos, ácidos, bem leves e aromáticos. Alguns produtores também apostam em vinhos de sobremesa, tipo os cosecha tardía, que são docinhos e mantém uma boa acidez. Uma boa pedida também!

Mapa de regiões vinícolas (Winefolly)
Mapa de regiões vinícolas (Fonte: Winefolly)

Assim, a torrontés é a uva branca emblemática da Argentina. A maioria dos países produtores do Novo Mundo elege uma uva como emblemática. A tinta da Argentina é
a Malbec. Em 2015, foi a 2a variedade branca mais plantada (27% das brancas), muuito próxima da 1a colocada, a (96,6%) Pedro Ximenes, que é utilizada para vinhos de mesa.

A minha confraria começou com o Território, da bodega Amalaya, que significa Esperanza por un Milagro na língua indígena. Fica em Salta, no norte, lá pro lado da fronteira com a Bolívia. É uma região desértica, de solo arenoso e alta. Bem alta. Como eu já comentei, em Colomé estao estao os vinhedos mais altos do mundo. Pertence à família Hess e foi inaugurada em 2010. Amalaya antes era uma linha de vinhos da bodega Colomé, também de Salta e também da família Hess. Os vinhedos de torrontés estão a 1700metros de altitude. O Território foi, para mim, o torrontés mais representativo da confraria: aromas bem florais, a jasmim e geranio, um papaia. Uma promessa de doçura no nariz mas um caráter bem seco em boca, que é o típico desta uva, que é por isso chamada pelos locais de “mentirosa”: promete doce nos aromas mas entrega secura no paladar. Bem fresco, ácido e leve. Para quem provou juntos o torrontés e o sauvignon blanc, eu acredito que tenha ficado bem clara a diferença entre os dois, Quem não tomou junto vai tue puxar a memória um pouquinho mais, mas ainda acho que dá para formar uma imagem mental bem definida de cada um. Acho que já dá até para saber qual é qual às cegas. Será que não? Quem tentou? A cor é amarelo pálido, com reflexos esverdeados. Muito parecida à do sauvignon blanc, mas no nariz e na boca dá para distinguir bem. É um vinho para tomar sozinho, no verão ou com uma comida bem leve e delicada. Eu sugiro ceviche!

Eu não vou me demorar muito nas notas de degustação dos outros dois vinhos porque, pelo que eu vi, eles não estão disponíveis no Brasil e eu acho uma chatice quando esses sommeliers ficam falando das maravilhas de um desses vinhos que eu dificilmente vá provar, mas eu vou destacar alguns pontos que me pareceram interessantes. O Ominium, que é da Viniterra em Mendoza. O site deles nem registra esse vinho, o que além de bizarro e chato, porque você não consegue nenhuma informação sobre a fabricação, me dá uma impressão meio de descaso, mas vamos lá: esse vinho vem numa garrafa verde, o que não é comum para vinhos jovens. Os outros 2 têm garrafa transparente, assim você vê o que está comprando. Por outro lado, a garrafa verde protege da oxidação pelos raios UV. Na boca, também, ele estava meio apagado – apesar de os aromas estarem perfeitos. Chegou-se a cogitar se tinha passagem por barrica, mas fora esse sabor menos fresco, não encontramos nenhuma outra indicação de barrica, especialmente o preço.

Já o San Huberto estava claramente oxidado. Pela foto das garrafas vocês já podem ver a diferença de cor. Amarelo bem mais intenso e dourado. A Anita tinha esse vinho na adega havia 1 ano – bem guardado, deitado, Confraria_brancos_jovens1no escuro, frio – e mesmo assim o vinho não agüentou. Não é que tenha virado vinagre. Dava até bem para tomar, mas é um vinho que já passou seu esplen
dor. Ela mesma comenta que no ano passado os aromas eram de flores e agora tinha uma nota de iodo e de oxidação e era meio que só isso. Matava tudo! E quando não tem aroma, perde 80% da graça! E é matemático isso, porque do que a gente sente em boca e pensa que é sabor é, na verdade, aroma. Sabor são só 5 sensações: doce, salgado, azedo, amargo e umami, que é meio um ajinomoto. Oxidação é um defeito e é um dos casos em que se deve recusar o vinho no restaurante. Para quem conhece jerez, jerez é vinho oxidado. É esse aroma. Eu até digo ajerezado, embora nao seja tecnicamente correto. Para quem não conhece, é só separar uma taca de vinho e deixar fora da geladeira num cantinho e depois conferir. Em no máximo 3 dias já era!

E era isso que eu tinha pra contar hoje. Esse programa acabou ficando uma mescla de confraria e Trilha do Enófilo, mas eu gostei muito do resultado. Espero que vocês provem e aprovem a torrontés, nossa uva cucaracha. E se provar o famoso Crios da Susana Balbo, me manda a ficha completa!

A última dica que eu queria dar hoje é para encontrar vinhos. Eu uso o wine-searcher.com. Versão web. Eles já estão começando a restringir algumas coisas, para forcar a gente a migrar para a versão profissional mas mesmo assim ainda dá bem para usar. Você coloca lá o vinho que quer, ou só a uva, escolhe o país e ele te traz uma lista de lojas que tem esse vinho, com preço e com uma avaliação da loja. Muito útil.

 

Nos acompanhou neste programa Jane Monheit, com Honeysuckle Rose:

Mucgas gracias a las colegas y sommeliers Aejandra Fardo y Anita Santos!

E aí, gostou? Tem sugestões? Dúvidas? Escreve pra mim no contato@simplesvinho.com e me ajude a tornar essa experiencia ainda mais interessante para todo mundo!

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Vinhos provados nesta condraria:

Território – 2014» 100% torrontés do Valle Calchaquí, 1700 mts. / Salta, Argentina.

Ominium – Bodega Viniterra – 2014: Mendoza, Argentina. O site é www.omniumwines.com.ar, mas o torrontés não aparece lá.

San Huberto – 2013» 100% Torrontés Riojano

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